Morte de Jardo
Um até breve, Jardo
Dr. Aníbal Simões (Escritor e professor universitário)
Cruzámo-nos com Jardo Muekalia em março de 2009. Eu encontrava-me, então, em Braga, quando recebi um telefonema vindo dos States. O contacto foi breve, mas marcante: serviu para me saudar, falar um pouco da família, e me dizer que tinha lido o livro de Samuel Chiwale, Cruzei-me com a História — obra que escrevi a partir de uma série de entrevistas realizadas ao longo de vários meses. A partir dessa leitura, manifestou o desejo de me incluir num projecto semelhante.
Aceitei de bom grado e, desde então, mantivemos contactos regulares. O projecto tinha como propósito reflectir sobre o nosso país, com enfoque naquilo que ele designava como a segunda democracia, entendendo que a primeira — a primeira revolução — tinha sido contra o colonialismo. Com a minha aceitação e a contribuição de outros autores — devidamente referidos no preâmbulo do livro —, em cerca de seis meses o manuscrito ficou concluído. Em setembro, foi entregue à Editora Sextante, também por sugestão do Dr. Emanuel Lopes. Um dos aspectos que facilitou e acelerou todo o processo foi o nível cultural de Jardo e o seu domínio da língua portuguesa, o que não admira, pois, tal como eu, ele era igualmente produto do Liceu Norton de Matos, do Huambo, onde concluíra o 7.º ano. O livro, que hoje se encontra na 4.ª edição, superou largamente as expectativas.
Tal como afirma Jean-Michel Mabeko-Tali, trata-se de um “texto autobiográfico cativante, porque não se limita a narrar ou a descrever factos: analisa com profundidade os acontecimentos, os diferentes contextos nacionais, regionais e internacionais que marcaram os longos anos da guerra civil em Angola, bem como os seus protagonistas, tanto fora como dentro da UNITA”. Um aspecto particularmente interessante foi o facto de que esse projecto despoletou outros. Um deles surgiu alguns anos mais tarde, como fica patente numa mensagem que recebi em 15 de Julho de 2014, onde se lê: “Caro mano e amigo, dada a consideração e o respeito que nutro por vós, entendi enviar-vos o manuscrito anexo da Bela”, a forma carinhosa como se referia a sua esposa, a Dra. Anabela Chipeio Muekalia. A obra, igualmente editada pela Sextante, viria a ser publicada com o título Quando o Impossível se Torna Possível. A partir daí, fui acompanhando o sucesso dos livros do casal e, nas poucas viagens de Jardo a Angola, íamos trocando impressões sempre que nos encontrávamos. Em novembro do ano passado, recebi um telefonema de Jardo, dizendo-me que estava em Luanda e a trabalhar no seu novo projeto político, que eu já conhecia.
O que mais me cativou foi o seu desejo de avançar com projectos académicos e intelectuais. Combinámos, dadas as minhas agendas académicas e profissionais, estarmos juntos durante a pequena pausa do Natal. Enquanto me preparava para esse encontro, no dia 11 de dezembro, chegou-me a notícia do falecimento de Jardo ocorrido na Virgínia, devido a problemas de saúde. Ficou em mim, para além da surpresa e da dor, um sentimento inapagável, pelo encontro adiado e não realizado. Aprendi, de forma dura, que adiar projectos é adiar momentos que talvez nunca mais voltem.
2027 - Ser Governo ou parte do Governo!
- 15 September 2026